domingo, 21 de outubro de 2012

Otenos ad Oaçarapes

O telefone calou.
De repente, não mais que de repente,
Gosto de cobre na boca.
De repente, não mais que de repente,
A dor parece uma bola de pêlo no estômago.
De repente, não mais que de repente,
A estranheza. 
De repente, não mais que de repente,
Vômito.
De repente.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Dor nos Dentes

Às vezes chego em casa com dor nos dentes. Tenho medo de perdê-los. Passo a língua sobre os molares, sobre os caninos e sobre os incisivos e todos parecem frouxos. A impressão que dá é que se pusesse um pouco mais de força na língua os dentes pulariam para fora da boca. A gengiva nem sangraria.

As raízes apodreceram.

domingo, 30 de setembro de 2012

Circo

"A vida é perfeita! Tudo é perfeito!", exclama um sujeito na rádio. O motivo de sua felicidade é um gol. Panem et circenses em prática.

Pollice verso.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Granizo

Uma vez choveu granizo. Eu estava na casa de meus avós. Acho que era primavera. O céu ficou escuro de repente. Da sala escutei as primeiras pedrinhas de gelo baterem no chão do pátio. Tirei os sapatos e a camiseta e corri para fora de casa. O piso ainda estava morno. Abri os braços e me deixei acertar pelo gelo. O corpo inteiro alvejado pelo granizo; a dor; a chuva fria; o chão ainda morno. O barulho das pedras batendo no pavimento. A chuva não deve ter durado mais do que dez minutos. Sentei na escadinha que levava à porta e observei as nuvens pretas se afastarem.

sábado, 15 de setembro de 2012

Compras

Disse que faria compras. Foi ao shopping e voltou com uma caixa de antidepressivo, xampú e desodorante.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Julho/Agosto/Julho

Agosto, oitavo mês do calendário gregoriano. Recebeu este nome em homenagem ao fundador e primeiro do Império Romano, Caesar Augustus. Caesar Augustus, herdeiro de Iulius Caesar, cujo nome foi adotado pelo sétimo mês do calendário gregoriano, Julho. Iulius Caesar nasceu em treze de julho do ano cem antes de Cristo e Caesar Augustus morreu em dezenove de agosto do ano catorze depois de Cristo.

Júlio veio antes, Augusto veio depois. Júlio nasceu em julho e Augusto morreu em agosto. Fine.

Curiosas aliterações históricas.
Busto do Imperador Augustus exposto no Musei Capitolini em Roma.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O Segundo Beijo

O segundo beijo só aconteceu anos depois do primeiro. Nesse meio tempo segui mantendo vivas todas as fantasias que me levaram àquele Verdade ou Consequência. Não beijar, contudo, não foi uma opção. Foi antes fruto da minha própria baixa auto-estima, reforçada, talvez, pela experiência desastrosa da tentativa anterior. Isso não significa, claro, que eu não tenha me interessado por algumas meninas durante o hiato. Pelo contrário. Era gamado em uma colega e permaneci assim até terminar o Ensino Médio. Apesar disso, nunca consegui demonstrar que era a fim dela. Beijá-la, então, estava fora de cogitação. Na mesma época, também gostava de uma amiga de uns amigos meus. Jogávamos RPG religiosamente todos os finais de semana. Eu era o bobão do grupo. Divertia-me contar piadas, fazer as pessoas rirem. Sou assim até hoje quando estou entre conhecidos. Acho que foi o meu senso de humor que me garantiu uma nova chance.

Convidei todo o grupo de RPG para minha formatura de Ensino Médio. Ela inclusive. A festa foi em um clube bem pertinho de onde eu morava. Depois da colação de grau, comemos pizza na minha casa e em seguida fomos caminhando até o baile. No caminho, ela se aproximou de mim e ficamos falando bobagens. Aquilo me fez bem. Não vou negar que imaginava beijá-la naquela noite. A possibilidade me excitava. Ainda assim, pensava que nunca aconteceria. A simples idéia de iniciar um flerte qualquer que me levasse à sua boca me fazia suar frio. O quê eu poderia dizer? Como fazê-la perceber minhas intenções? Como me portar? Não tinha respostas para essas perguntas. Falar bobagens, na minha cabeça, não seria suficiente e por isso sabia que a noite terminaria sem que acontecesse porra nenhuma. Por sorte eu estava errado.

A iniciativa foi dela. Sentávamos juntos ela, dois colegas e eu. Acho que eles devem ter percebido que rolaria alguma coisa, pois em algum momento nos deixaram sozinhos e foram aproveitar o baile. Eu, bobo, não apenas deixei de notar o interesse dela como também fiquei chateado com meus amigos que encheriam a cara sem mim. Mas era minha missão como anfitrião da festa entretê-la, e portanto seguimos conversando. Entre um assunto e outro, senti que ela segurava minha mão. Ao perceber, meu coração disparou. Houve um silêncio incômodo e quando me dei por conta já estávamos nos beijando. E foi tudo natural. Não precisei dizer nada. Não precisei fazer com que ela percebesse minhas intenções. Não precisei me portar de maneira especial. Simplesmente aconteceu, e seguiu acontecendo até que as luzes do salão foram acesas. Voltei para casa cantando com os passarinhos.