terça-feira, 15 de maio de 2012

Escutar The Smiths compulsivamente não é um bom sinal.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Puto(s)

Puto é uma palavra engraçada. Puto, na verdade, são muitos. Reza a lenda que vem do latim putu, que por sua vez significa menino ou rapaz. Em Portugal, o termo manteve seu significado original. Já no Brasil, puto passou a designar, segundo a maior parte dos dicionários, alguém "corrompido", "devasso" ou "dissoluto". Vai ver todos os homens que vendiam sexo na Colônia eram jovens e, portanto, chamados corriqueiramente de putos. Ou será que puto surgiu da masculinização de Puta, deusa romana das colheitas? Segundo Arnóbio, o Velho, as festas em honra à deusa eram tremendos bacanais regados à prostituição sacerdotal. Isso explicaria o significado do termo puta, com "a" no final, em muitos países de fala latina. Quem sabe? O que importa - e é aqui que queria chegar desde o início - é que puto pode significar, ainda, em linguagem informal do Brasil, "nada", "coisa nenhuma", ou um "estado de irritação tremanda". Não creio ser necessário saber a origem exata da gíria para parabenizar o gaiato que a criou e, possivelmente, difundiu. Há poucas palavras que dão mais prazer ao falante do que puto. As quatro letrinhas preenchem a boca em perfeita e sonora harmonia. "Estou puto". Só quem já se sentiu um belíssimo "coisa nenhuma" imerso em um "estado de irritação tremenda" entenderá a beleza do termo quando precedido pelo verbo "estar" no presente do indicativo.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Dia de cão; noite de lamber feridas.

sábado, 10 de março de 2012

KONY 2012?

A mais nova onda nas redes sociais é falar sobre o projeto KONY 2012, patrocinado pela ONG norte-americana Invisible Children. Nem me darei ao trabalho de disponibilizar o link para o video, já que dificilmente alguém ainda não o viu. O fato é que, de uma hora para outra, os horrores que a guerrilha liderada por Joseph Kony, o Lord's Resistance Army (LRA), vem perpetrando em algum lugar da África Central desde meados da década de 1980 foram expostos ao público e tornaram-se a mais nova bandeira de uma legião que até então pouco se interessava por Uganda, pela República Democrática do Congo, pela República Centro Africana ou pelo Sudão do Sul. Até aí, tudo bem. A internet tem este poder. Apresente um problema qualquer em um video bem produzido e voilá! O retorno é praticamente garantido. Em algum lugar do mundo alguém irá se identificar com a sua questão e, possivelmente, contribuirá com alguma grana. Dependendo do caso, a atitude é de fato louvável. Há pouco tempo, aqui mesmo em Porto Alegre, um grupo resolveu chamar a atenção para a falta de sinalização nas paradas de ônibus da cidade. A causa, também divulgada através de um video, logo chamou a atenção das autoridades responsáveis pela circulação de veículos na capital, que de pronto passaram a trabalhar para resolver o caso. A idéia por trás deste tipo de iniciativa é, de fato, cativante. Não só expande o velho ditado ambientalista - "pensar globalmente, agir localmente" -, mas também convida todos à mobilização popular. O problema é quando este tipo de ação se baseia em soluções que são, no mínimo, questionáveis.

No video, a Invisible Children pede que o governo dos Estados Unidos - mas também que celebridades do cinema, do esporte e da música - posicionem-se ativamente para promover a captura de Kony. A ONG sugere que a melhor maneira de o país demonstrar a sua indignação com os crimes do LRA é treinar e possivelmente armar combatentes locais até que estes cumpram a missão de levar Kony ao Tribunal Penal Internacional (TPI) em Haia. Como se isso fosse fácil. Caro Jason Russel, pai do KONY 2012, permita-me dizer: não é. Bem pelo contrário. Dar cabo a um movimento de guerrilha é uma tarefa das mais complicadas. A história está cheia de exemplos - alguns bem recentes - para confirmar esta afirmação. Mas a proposta de Russel não é furada simplesmente pela dificuldade empiricamente comprovada de se vencer uma guerrilha. O que a torna ainda mais frágil é o fato de estar amparada sobre uma completa ignorância em assuntos militares. Esta ignorância foi reconhecida e questionada em diferentes artigos que surgiram em resposta ao barulho causado pela campanha. Não pretendo, portanto, repetir ou revisar os argumentos de gente como Jack McDonald ou Grant Oysten. Eles estão disponíveis gratuitamente para quem se interessar em ter uma visão mais realista do problema. Mais realista pois não acredita que guerras possam ser vencidas com cartazes, adesivos e pulseirinhas. Mais realista pois compreende que guerras só terminam, infelizmente, quando há derramamento de sangue.

Mas é claro que uma ação que apresentasse o problema da África Central desta forma jamais ganharia a atenção do público. Pelo contrário. É bem possível que as pessoas que hoje comentam a campanha freneticamente no Facebook e no Twitter fechassem os olhos para o video e continuassem a matar seu tempo com virais mais despretenciosos. De certa forma, a Invisible Children acertou ao veicular a idéia de que é possível acabar com um conflito da frente de um computador. Seus cofres certamente ficarão bem mais recheados nos próximos dias. Pena que ao mesmo tempo a ONG tenha contribuido para a alienação daqueles que pensam que guerras só acontecem por que há no mundo mocinhos e bandidos.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Conveção de Condomínio

Da convenção de condomínio:

Capítulo II: Das Disposições Gerais
Art. 2º São deveres dos condôminos e moradores:
II - Evitar o ingresso no edifício de pessoas de maus costumes, vida desregrada, ou moral duvidosa.

Engraçado como o espírito do pequeno burguês - ou simplesmente do burguês, dependendo do caso - se manifesta em um documento tão singelo quanto uma convenção de condomínio. Não de forma explícita, claro. Até o pequeno burguês se assustaria caso percebesse os absurdos a que se condiciona. Ainda assim, seu espírito está lá, escondido entre capítulos, artigos e disposições. O pequeno burguês não nota, mas em cada uma de suas palavras reside todo o consevadorismo que o sustenta. Esse conservadorismo o pequeno burguês mantém com afinco. Não quer ver seus valores contaminados com aqueles que imperam fora de seu apartamento. Por isso se afasta da realidade, afastando também todos os que poderiam fazê-lo ver que há algo além do quarto em que vivem. A esses indivíduos o pequeno burguês dá o nome de "pessoas de maus costumes, vida desregrada, ou moral duvidosa". Mas qual moral, se não duvidosa, levaria a um texto assim?

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Pregações

"Com licença, o senhor gosta de ler?" A pergunta me pegou de surpresa. Nem minha cara de cu usual inibira o sujeito de se aproximar. Qualquer que fosse a reposta, contudo, sabia que seria seguida de algum tipo tipo de oferta esdrúxula. Encarei o sujeito por um segundo: calças pretas, sapatos pretos, e camisa branca de mangas curtas, abotoada até a gola. Crente ou vendedor de enciclopédias. Como enciclopédias estão em baixa, apostei na primeira opção. Não respondi. "O senhor já leu a Bíblia?" Batata, era crente mesmo. "Não, não li." "Entendo. Muitas pessoas têm dificuldade em ler. Talvez o senhor gostasse de começar por algo mais fácil. Tenho aqui comigo algumas palavras de conforto..." Algo mais fácil. Na certa leio por semana mais do que o cara já leu em toda a vida. "Olha, meu amigo, não estou interessado". Tentei ser cordial, por pior que fosse. Não nutro o menor respeito por qualquer tipo de crente. "Tem certeza, senhor? As palavras vêm acompanhadas de ilustrações e..." Acompanhadas de ilustrações. Naquele momento o sujeito pôs minha paciência em xeque. "Cara, não quero. Não acredito nessas merdas." Ele me olhou estarrecido. Na certa não escutava "merdas" todos os dias. Balançou a cabeça e foi embora. Fiquei tranqüilo, na minha.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Villaró

Há algumas semanas, uns amigos me chamaram pra comer em um destes restaurantes chiques da cidade. Eles tinham descolado um jantar por um precinho camarada em um site de compras coletivas. Esses sites funcionam de uma forma bem simples: a loja oferece um serviço por um valor reduzido desde que um número específico de pessoas comprometa-se a comprá-lo. Quem compra imprime um voucher e apresenta no estabelecimento. O rango, portanto, sairia praticamente de graça. Aceitei o convite, ainda que com um pé atrás. Nunca me sinto à vontade em lugares da moda e sabia que o tal restaurante estaria cheio de narizes empinados. A companhia de meus amigos e a perspectiva de fazer um programa diferente, contudo, valeriam o esforço.

Cheguei ao local combinado pelas 21h30, levemente atrasado graças a uma porta que teimava em ficar trancada. Era uma quinta-feira e o tal parrilla lounge estava lotado, justamente como imaginei que estaria. Parrilla, para quem não sabe, nada mais é do que o churrasco uruguaio. Lounge é um tipo de música que mistura jazz, bossa-nova, eletrônica e o que mais o disco-jóquei quiser. Qual a moral de se comer churrasco escutando este tipo de som eu não descobri. Pretensão, talvez? Combinaria com as fotos de Punta del Este penduradas nas paredes do lugar. Aliás, casa inteira queria passar ao comensal a impressão de que ele estava de fato em Punta.

Passado o choque - afinal, fora transportado para o Uruguai! - pus-me a procurar meus camaradas. Logo de entrada percebi que uma moça me fitava com uma cara-de-o-que-tu-ta-fazendo-aqui,-cabeludo. Ignorei-a sem dó e me dirigi à mesa de meus comparsas. Eles bebericavam uma água e conversavam animadamente. Assim que sentei, um garçom trouxe o cardápio. Aproveitei para indagá-lo sobre o funcionamento dos tíquetes promocionais. Ao ouvir a palavra tíquete, contudo, o sujeito prontamente foi atender o casal da mesa ao lado. Fiquei, literalmente, falando sozinho. Surpreso com a atitude do garçom, fiz sinal para que um outro viesse até mim. Deixei o voucher sobre a mesa enquanto o moço se aproximava. Ele foi chegando devagar e, ao perceber a existência do cupom, imediatamente voltou-se para uma outra mesa. Fiquei mais uma vez no vácuo.

Àquela altura, já estava enraivecido. Meus amigos, por outro lado, pareciam bem mais tranquilos. Foi aí que eles, experientes com promoções, disseram-me que o tratamento dispensado para quem usa tíquetes geralmente é assim. O negócio era ser paciente e rir com situação. Fiquei incrédulo. Era a primeira vez que usava aquele tipo de serviço, e em minha cabeça não fazia sentido algum que um restaurante fizesse tamanha propaganda contra si.

Após algumas tentativas frustradas, consegui chamar a atenção de um terceiro garçom. Ele anotou nossos pedidos com ar rabugento, recolheu os cupons impacientemente e saiu. A comida foi servida mais ou menos meia hora depois. Qual não foi nossa surpresa ao perceber que os pratos não batiam com a descrição do menu? O "Risoto de Manjericão com Castanhas do Caju" levava manjericão e castanhas só no nome. A noite se tornara uma bela palhaçada. De que adianta fazer promoção se na hora o cliente se ferra? Meu bom senso diz que cliente é cliente, seja com tíquete, seja sem. A verdade é que após verem os pratos até meus amigos, que estavam levando tudo na esportiva, se chatearam. Tanto que nem nos demos o trabalho de reclamar. Comemos nosso risotto insosso, pagamos a conta e demos no pé. Na próxima, parrilla lounge nem pensar.