domingo, 26 de fevereiro de 2012

Pregações

"Com licença, o senhor gosta de ler?" A pergunta me pegou de surpresa. Nem minha cara de cu usual inibira o sujeito de se aproximar. Qualquer que fosse a reposta, contudo, sabia que seria seguida de algum tipo tipo de oferta esdrúxula. Encarei o sujeito por um segundo: calças pretas, sapatos pretos, e camisa branca de mangas curtas, abotoada até a gola. Crente ou vendedor de enciclopédias. Como enciclopédias estão em baixa, apostei na primeira opção. Não respondi. "O senhor já leu a Bíblia?" Batata, era crente mesmo. "Não, não li." "Entendo. Muitas pessoas têm dificuldade em ler. Talvez o senhor gostasse de começar por algo mais fácil. Tenho aqui comigo algumas palavras de conforto..." Algo mais fácil. Na certa leio por semana mais do que o cara já leu em toda a vida. "Olha, meu amigo, não estou interessado". Tentei ser cordial, por pior que fosse. Não nutro o menor respeito por qualquer tipo de crente. "Tem certeza, senhor? As palavras vêm acompanhadas de ilustrações e..." Acompanhadas de ilustrações. Naquele momento o sujeito pôs minha paciência em xeque. "Cara, não quero. Não acredito nessas merdas." Ele me olhou estarrecido. Na certa não escutava "merdas" todos os dias. Balançou a cabeça e foi embora. Fiquei tranqüilo, na minha.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Villaró

Há algumas semanas, uns amigos me chamaram pra comer em um destes restaurantes chiques da cidade. Eles tinham descolado um jantar por um precinho camarada em um site de compras coletivas. Esses sites funcionam de uma forma bem simples: a loja oferece um serviço por um valor reduzido desde que um número específico de pessoas comprometa-se a comprá-lo. Quem compra imprime um voucher e apresenta no estabelecimento. O rango, portanto, sairia praticamente de graça. Aceitei o convite, ainda que com um pé atrás. Nunca me sinto à vontade em lugares da moda e sabia que o tal restaurante estaria cheio de narizes empinados. A companhia de meus amigos e a perspectiva de fazer um programa diferente, contudo, valeriam o esforço.

Cheguei ao local combinado pelas 21h30, levemente atrasado graças a uma porta que teimava em ficar trancada. Era uma quinta-feira e o tal parrilla lounge estava lotado, justamente como imaginei que estaria. Parrilla, para quem não sabe, nada mais é do que o churrasco uruguaio. Lounge é um tipo de música que mistura jazz, bossa-nova, eletrônica e o que mais o disco-jóquei quiser. Qual a moral de se comer churrasco escutando este tipo de som eu não descobri. Pretensão, talvez? Combinaria com as fotos de Punta del Este penduradas nas paredes do lugar. Aliás, casa inteira queria passar ao comensal a impressão de que ele estava de fato em Punta.

Passado o choque - afinal, fora transportado para o Uruguai! - pus-me a procurar meus camaradas. Logo de entrada percebi que uma moça me fitava com uma cara-de-o-que-tu-ta-fazendo-aqui,-cabeludo. Ignorei-a sem dó e me dirigi à mesa de meus comparsas. Eles bebericavam uma água e conversavam animadamente. Assim que sentei, um garçom trouxe o cardápio. Aproveitei para indagá-lo sobre o funcionamento dos tíquetes promocionais. Ao ouvir a palavra tíquete, contudo, o sujeito prontamente foi atender o casal da mesa ao lado. Fiquei, literalmente, falando sozinho. Surpreso com a atitude do garçom, fiz sinal para que um outro viesse até mim. Deixei o voucher sobre a mesa enquanto o moço se aproximava. Ele foi chegando devagar e, ao perceber a existência do cupom, imediatamente voltou-se para uma outra mesa. Fiquei mais uma vez no vácuo.

Àquela altura, já estava enraivecido. Meus amigos, por outro lado, pareciam bem mais tranquilos. Foi aí que eles, experientes com promoções, disseram-me que o tratamento dispensado para quem usa tíquetes geralmente é assim. O negócio era ser paciente e rir com situação. Fiquei incrédulo. Era a primeira vez que usava aquele tipo de serviço, e em minha cabeça não fazia sentido algum que um restaurante fizesse tamanha propaganda contra si.

Após algumas tentativas frustradas, consegui chamar a atenção de um terceiro garçom. Ele anotou nossos pedidos com ar rabugento, recolheu os cupons impacientemente e saiu. A comida foi servida mais ou menos meia hora depois. Qual não foi nossa surpresa ao perceber que os pratos não batiam com a descrição do menu? O "Risoto de Manjericão com Castanhas do Caju" levava manjericão e castanhas só no nome. A noite se tornara uma bela palhaçada. De que adianta fazer promoção se na hora o cliente se ferra? Meu bom senso diz que cliente é cliente, seja com tíquete, seja sem. A verdade é que após verem os pratos até meus amigos, que estavam levando tudo na esportiva, se chatearam. Tanto que nem nos demos o trabalho de reclamar. Comemos nosso risotto insosso, pagamos a conta e demos no pé. Na próxima, parrilla lounge nem pensar.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Se não fosse verdade, não seria clichê.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Esmalte preto pra esconder o sangue sob tuas unhas.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Balanço

Ainda ontem conversava com um amigo sobre as dificuldades de manter um blogue quando se é acadêmico. Depois de passar horas lendo e escrevendo sobre os assuntos mais estapafúrdios, guerra irregular, no meu caso, e cyber-coisas, no dele, escrever por prazer pode ser um martírio. Porque chega um momento do dia em que tudo o que o cérebro quer é água. Por mais que tentemos, o esgotamento mental é tão grande que as idéias simplesmente não surgem. Às vezes, nem mesmo surge a vontade. É tão mais fácil ver TV! Talvez haja uma forma de doutrinar, quem sabe, a cabeça para um último gás. Tipo o sprint do maratonista na reta de chegada. Ainda não descobri como fazê-lo, mas tenho um palpite que seja uma questão de prática. Então, já que ainda é Ano Novo, acho pertinente fazer pelo menos uma promessinha para o Gulag. Sobretudo tendo em vista o ridículo número postagens em 2011. Correndo o risco de deixar o blogue ainda mais pessoal do que já está - não era exatamente esta a idéia quando o criei -, proponho no mínimo uma postagem por semana em 2012. Acreditem, é um tremendo desafio. Veremos se conseguirei cumpri-lo.

sábado, 17 de setembro de 2011

Em Cena

Bueno, dane-se o prussiano. Segue o texto.

Já faz um tempo que sou espectador assíduo das peças do Porto Alegre em Cena. Todos os anos renovo minha Carteirinha da FUNAI e bato ponto na Usina do Gasômetro para comprar as entradas. Costumo chegar lá bem cedinho - o que não é fácil, uma vez que a venda de ingressos sempre inicia em um final de semana - na esperança de evitar filas quilométricas e ainda garantir bons assentos para cada espetáculo. Com a identificação de estudante no bolso, para conseguir os descontos que me cabem por direito, espero alegre, horas a fio, o momento de apontar para a moça do guichê os espetáculos que desejo assistir. Se não fossem os amigos, fiéis escudeiros que sempre me acompanham, talvez nem me dispusesse a viver essas emoções assim, anualmente. Mas o fato é que vou, ou melhor, ia.

Neste ano resolvi deixar o Festival para lá, dada a imensa carga de trabalho que tenho de vencer até o fim do semestre. Ao invés de mofar numa fila em uma manhã ensolarada de domingo, pedi a um desses amigos que comprasse um único ingresso para mim, pela internet mesmo. A idéia era poupar tempo e dinheiro, já que do ano passado para cá os ingressos sofreram um rompante inflacionário de assustar até uma Zélia de Mello. Depois de se irritar inúmeras vezes com o eficiente sistema de compras online do Festival, meu amigo ligou avisando que conseguira os tiquetes. O único porém era que os nossos assentos não eram tão bons, porque a peça era uma das mais procuradas e os ingressos estavam quase esgotados. Tudo bem, pensei, estas coisas são assim sempre. O importante é ter os lugares.

***

Cheguei ao teatro uns vinte minutos antes da peça começar. O espetáculo em questão tinha nome de dinossauro e um ator Global no elenco. Isso provavelmente explica porque os ingressos se esgotaram de forma tão rápida: não há quem não goste de dinossauros. Uma fila gigantesca já se formara em frente a porta. Encontrei meu amigo e aguardamos a bicha começar a se mexer para juntarmo-nos a ela. Após uma espera surpreendentemente curta, entramos no Salão de Atos e tomamos nossos assentos. A casa estava lotada. Desliguei o celular e esperei o sinal. As luzes enfraqueceram e o espetáculo teve início. Junto com ele, o meu martírio.

Todo o ano participo do Porto Alegre em Cena e todo o ano me esqueço como o público é burro. Por sorte ele nunca tarda a me lembrar. Acho surpreendente como o povo consegue ver graça em tudo. Por mais dramático que o texto seja, há sempre um engraçadinho para dar risada. Se a peça for declaradamente uma comédia, o circo está armado! Se for comédia e tiver palavrão, então, o bicho pega mesmo! Se bem que tendo palavrão já tá valendo. Acho que o pessoal não está acostumado a escutar gente falando cu, boceta, gozo, foder, etc. Na novela das oito não dizem esse tipo de coisa, até porque é pecado.

Dessa vez não foi diferente. Mal começara o espetáculo e as gargalhadas já rolavam soltas na platéia. Talvez as pessoas estivessem influenciadas pelo sábado a noite e pelo fato de terem trocado o conforto do lar e do Zorra Total pelo teatro. Não sei ao certo. O que sei é que, se no fim das contas meu assento nem era assim tão ruim, espacialmente falando, acabou se tornando uma merda graças aos tipos que me rodearam. Sentado à minha esquerda estava o sujeito que provavelmente mais gargalhou durante o espetáculo. Quando digo "gargalhar" espero que o leitor imagine alguém que tenta se comunicar com os atores do palco através do riso, mesmo estando a vinte fileiras de distância deles. Se não bastasse o volume da gargalhada, meu vizinho ainda se contorcia e projetava o corpo para frente a cada "piada" que escutava. O mesmo fazia a moça sentada na poltrona em frente: não basta gargalhar, o negócio é mostrar para todo o mundo como o texto é engraçado. Ela e seus vizinhos também riam risos largos e sonoros, ainda que com menos frequência. O barulho ao meu redor era tanto que por vezes não escutava o que os atores diziam. Por umas duas horas, estive sob fogo cruzado, tendo meus ouvidos massacrados por rajadas impiedosas de hahahas.

Na medida em que as gargalhadas não cessavam, aumentava o meu mau-humor e o meu descontentamento em relação ao espetáculo. Lá pelas tantas já nem conseguia prestar mais atenção ao texto ou à atuação. Só queria sair do teatro e me livrar daqueles risos. Não sou muito chegado a aglomerações humanas e esse tipo de público só faz com que eu reforce o meu asco. Ou será que sou eu que sou um mala? Será que é normal achar graça até onde ela não existe? Pouco importa. Naquele sábado nem os dinossauros conseguiram resgatar o meu humor.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

до свидания!

Sinto uma dor cada vez que penso que tem um tempão que não escrevo aqui. Mais uma vez o Gulag foi abandonado. Não gostaria de deixá-lo as traças por muito mais tempo, mas por enquanto terá de ser assim. Tenho muito o que resolver com um certo prussiano antes de voltar a lidar com meus prisioneiros. до свидания!