quinta-feira, 2 de junho de 2011

Rei da Sacanagem

Desde os tempos de colégio sou conhecido como o Rei da Sacanagem. O título, logicamente, não veio de graça. Teve a sua origem na época em que boa parte da minha mesada era destinada à compra de revistinhas de mulher pelada. Só um guri de doze ou treze anos sabe a emoção que é ir até uma banca de jornal com esse objetivo.

A operação era sempre muito bem pensada e envolvia o respeito a algumas regras que, na minha cabeça, facilitavam toda a empreitada. A regra número um era parecer seguro. Entrar na banca e escolher as revistas como se essa fosse a situação mais natural do mundo. Cordialidade com o jornaleiro era indispensável. Além disso, a estratégia envolvia um complexo sistema de rodízio: se em uma semana visitava a banca xis, na outra obrigatoriamente visitaria a banca ípsilon, depois a zê e assim por diante, até ter percorrido todo o bairro. A idéia era evitar ser taxado de punheteiro pelos jornaleiros. Fora isso, existia também o medo de receber um não. Afinal, era menor de idade e legalmente não podia comprar esse tipo de material. A sorte era que a grande maioria dos jornaleiros não estava nem um pouco preocupada com a legalidade do negócio e vendia as revistas sem hesitar. É claro que, às vezes, o temido não acabava vindo. Nessas horas, a vontade era de sumir e de nunca mais voltar àquela banca. De fato não voltava, pelo menos por um tempo. Passadas algumas semanas, acreditava que o jornaleiro já teria esquecido meu rosto e que portanto poderia voltar a visitá-lo sem problemas. Se achava que a barra ainda estava suja para o meu lado, contatava meu cúmplice e agíamos juntos.

O amigo em questão gostava tanto de sacanagem quanto eu. Éramos uma dupla imbatível no quesito putaria, verdadeiros connoisseurs. Sabíamos de cor os nomes de editoras, de publicações, as datas de lançamentos, e claro, conhecíamos muito bem as moças que ilustravam as revistas. Nos sábados, reuníamo-nos para comentar as revistas e planejar o roteiro de visitas da semana seguinte.

Em bem pouco tempo descobrimos a existência dos sebos e de seus infinitos acervos pornôs. Ainda que a idéia de comprar revistas de sacanagem usadas fosse estranha – estávamos sempre prontos para encontrar páginas coladas, manchas e cheiros – não nos preocupávamos com ela e passávamos tardes garimpando os sebos mais obscuros do Centro. Tomávamos um ônibus e íamos de sebo em sebo catando raridades. Mesmo durante as férias, na praia, investíamos em nossas coleções, comprando, vendendo e trocando revistinhas. Não havia gênero que não nos interessasse. Do catecismo à fotonovela explícita, dos quadrinhos orientais ao pornô ginecológico: se tinha mulher já valia o investimento.

Àquela altura toda a galera já sabia do meu hobby. Quando viu o que eu escondia embaixo da cama, não deu outra: coroou-me Rei da Sacanagem. Logo que recebi o apelido não gostei muito da idéia. Junto com o título vinha implícita a condição de punheteiro-mór. O que as meninas pensariam? Eu não era nenhum tarado e temia que o apelido pudesse fazer com que as pessoas pensassem o contrário. Aos poucos, contudo, fui percebendo que ser o Rei não era para qualquer um. Afinal, todo mundo gostava de sacanagem, todo mundo queria sacanagem, mas todo mundo tinha medo de admitir. Eu era diferente. Curtia uma putaria e afirmava isso com orgulho, com nobreza. Era mesmo o Rei.

A popularização da internet acabou transformando meu modus operandi. Mudei o foco para fotos digitais e a mesada passou a ser torrada em disquetes. Dali em diante comprava apenas aquelas revistas essenciais para qualquer coleção. As Playboys da Carla Perez, Tiazinha, Sheila Mello e de tantas outras musas dos anos 1990, hoje praticamente esquecidas. Meu amigo seguiu comprando revistas por mais algum tempo, mas acabou se rendendo aos bytes também.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Mockingbird

Every morning that damned
Mockingbird stays on his twig
Right in front of my window
With his delicate, almost imperceptible smile
Mocking me because while he's already awake and singing
I can barely get out of my bed.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Ipanema, 19h45

Ipanema, 19h45
Senhoras saem de casa
Trajando seus melhores vestidos,
Anéis de ouro, brincos de ouro, colares de ouro,
Cabelos de prata
E vão à lanchonete comer baurus
Já não é 1962.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Fragmento I

Fading light shrouds the day
In red, black and grey,
So do I
In rain, traffic and noise.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Louva-a-Deus

Hoje de manhã encontrei um Louva-a-Deus
Fazia tanto tempo que não via um
Que tê-lo encontrado só pode significar
Boa sorte.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Burlamáquina

Tive minha primeira ereção aos nove anos de idade. Talvez essa até não tenha sido a primeira, mas foi a que ficou na memória como tal. Era maio de 1996 e a cidade estava repleta de outdoors anunciando a Playboy do mês. Na capa estava uma moça chamada Paula Burlamaqui. Lembro de vê-la da janela, em tamanho gigante, insinuando-se para mim sobre um tapete de peles. Ia com minha mãe para algum lugar da Zona Norte quando o carro parou em um sinal. Foi assim, de dentro do automóvel e ao lado de minha mãe, que a tal da ereção aconteceu. Na hora gelei. Não estava acostumado com aquilo e nem mesmo sabia ao certo o que estava acontecendo comigo. Naquela época, o sexo era algo bem etéreo para um guri de nove anos. Já tinha visto uma ou outra revista de mulher pelada, mas até aquele momento jamais sentira atração pelas moças das fotos, que eram, ao fim e ao cabo, apenas fotos.

Naquela tarde, contudo, Paula mudou de uma vez por todas a forma como eu veria as mulheres. Dali em diante, as moças das fotos não seriam mais feitas apenas de tinta e de papel: tornar-se-iam reais, de carne. Tornar-se-iam objetos de desejo. Fiquei meio embasbacado, olhando para o anúncio. Admirava o cabelo de Paula, o contorno de sua boca e, acima de tudo, admirava seus seios. A excitação, ainda que sexual, misturava-se com a idéia de conforto que aquele tapete passava. Sentia como se pudesse passar o resto da vida junto daquele tapete e daqueles seios.

Mas Paula me pegou desprevenido, no carro, ao lado de minha mãe. Quando me dei por conta do lugar onde estava, a vergonha foi total. A mágica se quebrou. Havia alguém entre Paula e eu, alguém entre o tapete e eu, alguém entre os seios e eu. Os trinta segundos do sinal vermelho tornaram-se eternos. Tentei disfarçar, coçar a testa, olhar para o outro lado, essas coisas. Tudo em vão. Paula já me hipnotizara. Ao perceber que minha mãe me fitava, ruborizei. Era impossível disfarçar a excitação. O sinal abriu e o carro arrancou. Na hora, minha mãe não comentou nada, então desconfiei: teria ela percebido? A confirmação veio mais tarde, quando até o meu avô ficou sabendo sobre o meu tesão pela Paula Burlamaqui, a Burlamáquina, como ele a chamou.

Na época não me interessei em descobrir quem era aquela mulher. Nem mesmo comprei a revista, ainda que Paula tenha se tornado protagonista de boa parte de minhas fantasias juvenis. Mesmo hoje não faço idéia de quem ela seja. Tudo o que sei é que em algum ponto da história ela traiu o namorado durante o Carnaval do Rio. Grande coisa. Se em 1996 ela tivesse um namorado, já o teria traído comigo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Noturno

Quero dormir, mas as sombras do quarto me impedem
Transformando-se em monstros que só um cérebro infantil poderia
Conceber.

Vinte anos depois aprendo a não mais temer a noite
Acostumei-me com o silêncio e com a escuridão e ainda assim
Tem noites em que os monstros da minha cabeça
Não me deixam
Dormir.